Natal em movimento
Isa
Helena não sabia explicar a sensação de que o Natal tinha mudado.
Não era tristeza, era apenas uma sensação leve, como um casaco que já não lhe assentava bem.
Durante muitos anos, tinha sido ela quem acendia a primeira luz da época natalicia.
A casa acendia-se de risos, passos apressados, pratos a tilintar e vozes que se sobrepunham, numa harmonia imperfeita, mas familiar.
Agora, já tinha feito uma pequena àrvore de natal, com luzinhas brilhantes e colocado alguns enfeites pela casa e fizera um presépio.
Ao longo das últimas semanas, já comprara os presentes para a familia. Cada um era escolhido como quem escreve um pequeno poema: um livro que lhe lembrava uma conversa antiga, uma caixa de chocolates do sabor preferido de alguém, um objeto que ela imaginava nas mãos de quem o receberia com alegria, e a pulseira que uma das netas manifestara vontade de ter.
Pensou com nostalgia que quando chegasse a noite da véspera de Natal começaria com a chave a rodar na porta...para ela sair, não para entrarem.
Mas levaria os presentes com cuidado, ainda tinha o dom de os levar embrulhados em gestos e lembranças.
Quando chegasse a casa da família, seria acolhedor, quente, bonito. Já sentia o calor, o amor, o cheiro a canela, o aroma das velas.
A familia reunida à volta da mesa para a consoada, a troca de presentes, a alegria dos mais novos...no fim da noite voltaria para a sua casa.
No dia seguinte, Dia de Natal, acordaria devagar, lembrar-se-ia que o natal já não tinha morada fixa. Esperavam-na para almoçar.
Outras vozes carinhosas, mais risos, mais movimento, outra casa, outra decoração, outros aromas. O mesmo calor, o mesmo amor. Era bom, era família, mas era também adaptar-se a novas geografias de afeto.
Ao final do dia, reuniam-se todos para o jantar de Natal. Mais alegria junta, tanto amor, pequenos gestos que de tão naturais passavam quase despercebidos.
E pela primeira vez em alguns anos Helena percebeu algo simples, quase poético. Apesar das mudanças, das casas, de caminhos diferentes, todos se inclinam para o mesmo amor. Amor não falta na sua família. O mesmo calor e a mesma luz.
Uma luz que não depende de nenhum lugar, apenas das pessoas. Talvez não tivesse perdido o Natal. Talvez apenas o estivesse a viver com um novo olhar.
Sorriu para si mesma. Afinal, pensou...a luz que resta é sempre suficiente para iluminar o caminho.
