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SEXTO SENTIDO

SEXTO SENTIDO

Natal em movimento


Isa

07
Dez25

Helena não sabia explicar a sensação de que o Natal tinha mudado.

Não era tristeza, era apenas uma sensação leve, como um casaco que já não lhe assentava bem.

Durante muitos anos, tinha sido ela quem acendia a primeira luz da época natalicia.

A casa acendia-se de risos, passos apressados, pratos a tilintar e vozes que se sobrepunham, numa harmonia imperfeita, mas familiar.

Agora, já tinha feito uma pequena àrvore de natal, com luzinhas brilhantes e colocado alguns enfeites pela casa e fizera um presépio.

Ao longo das últimas semanas, já comprara os presentes para a familia. Cada um era escolhido como quem escreve um pequeno poema: um livro que lhe lembrava uma conversa antiga, uma caixa de chocolates do sabor preferido de alguém, um objeto que ela imaginava nas mãos de quem o receberia com alegria, e a pulseira que uma das netas manifestara vontade de ter.

Pensou com nostalgia que quando chegasse a noite da véspera de Natal começaria com a chave a rodar na porta...para ela sair, não para entrarem.

Mas levaria os presentes com cuidado, ainda tinha o dom de os levar embrulhados em gestos e lembranças.

Quando chegasse a casa da família, seria acolhedor, quente, bonito. Já sentia o calor, o amor, o cheiro a canela, o aroma das velas.

A familia reunida à volta da mesa para a consoada, a troca de presentes, a alegria dos mais novos...no fim da noite voltaria para a sua casa.

No dia seguinte, Dia de Natal, acordaria devagar, lembrar-se-ia que o natal já não tinha morada fixa. Esperavam-na para almoçar.

Outras vozes carinhosas, mais risos, mais movimento, outra casa, outra decoração, outros aromas. O mesmo calor, o mesmo amor. Era bom, era família, mas era também adaptar-se a novas geografias de afeto.

Ao final do dia, reuniam-se todos para o jantar de Natal. Mais alegria junta, tanto amor, pequenos gestos que de tão naturais passavam quase despercebidos.

E pela primeira vez em alguns anos Helena percebeu algo simples, quase poético. Apesar das mudanças, das casas, de caminhos diferentes, todos se inclinam para o mesmo amor. Amor não falta na sua família. O mesmo calor e a mesma luz.

Uma luz que não depende de nenhum lugar, apenas das pessoas. Talvez não tivesse perdido o Natal. Talvez apenas o estivesse a viver com um novo olhar.

Sorriu para si mesma. Afinal, pensou...a luz que resta é sempre suficiente para iluminar o caminho.

...


Isa

07
Dez25

Os sonhos são cartas que enviamos a nossas outras restantes vidas.

Mia Couto - Terra Sonânbula

Oito anos depois, a mesma luz


Isa

06
Dez25

O restaurante fervilhava de gente. Trabalhadores na pausa do almoço, famílias em conversa solta.

Nós ocupavamos uma mesa discreta, de olhos inquietos, à espera da nossa amiga.

Nelinha estava fora do pais havia oito anos e as saudades pesavam no peito como uma mala por desfazer.

O ar estava carregado de aromas, copos tilintavam numa cadência quase musical, e as conversas entrelaçavam-se no espaço.

De repente, ela entrou.

Por um instante, tudo pareceu suspenso.

Algumas cabeças voltaram-se na sua direção, e o seu sorriso iluminou a sala inteira, ofuscando o resto. Aquele sorriso contagiante que lembrávamos tão bem fez-nos sorrir também.

O perfume dela tomou o lugar do aroma da comida enquanto corria para nós.

Parecia que todos percebiam aquele mesmo calor de acolhimento, o eco das memórias feitas de amizade verdadeira.

Ela podia ser nossa filha, mas quando estamos juntas a idade dissolve-se, o que fica é apenas a ligação.

O riso dela continua a ser uma melodia viva nas nossas vidas e, apesar do tempo e da distância, ela permanece igual: a mesma luz, a mesma alegria.

Há amizades assim, que resistem ao tempo, aos quilómetros e às diferenças.

Amizades que simplesmente...permanecem.

Oito anos depois, a amizade e a luz da nossa amiga Nelinha, continuou intactas nas nossas vidas.

Às vezes a vida oferece-nos momentos tão simples e ao mesmo tempo tão profundos.

Ela voltou para o país que a acolhe. E nós vimo-la partir com o coração partido, mas sabiamos que não seria um adeus...um até já, pois combinámos visitá-la.

Mas mesmo que passem mais oito anos, a nossa amizade será sempre a mesma. Verdadeira, profunda, incondicional. 

 

 

Sob o guarda-chuva azul


Isa

30
Nov25

Numa noite de chuva intensa, Clara caminhava por uma rua quase apagada, guiada apenas pelo velho guarda-chuva azul, que a acompanhara em tantas tempestades.

Aa poças brilhavam como pequenos espelhos quando, ao longe, uma luzinha tremeluzente se acendeu numa loja abandonada.

Curiosa, movida por um impulso doce e inexplicável, Clara entrou.   

Sobre o balcão repousava uma caixinha de música que há muitos anos tinha desaparecido, a mesma que um dia pertencera à sua avó.

A chuva batia no telhado de zinco, com a cadência de um coração antigo, marcando o compasso da melodia frágil que a caixa deixava ainda escapar.

Quando os seus dedos a tocaram, a música parou e a luzinha apagou-se como um suspiro.

No silêncio que se seguiu, profundo, quase sagrado, Clara julgou ouvir uma voz suave feita de chuva e memória, murmurar: "Vai ficar tudo bem".

Saiu devagar, sob o seu guarda chuva azul,  levando a caixa junto ao peito.

E enquanto caminhava para casa, sentiu que a avó caminhava com ela, iluminando aquela noite de tempestade como uma presença que a chuva nunca conseguiria apagar.

 

 

Quando a amizade respira


Isa

26
Nov25

Há palavras que nos marcam de tal modo, que nos fazem reflectir sobre os valores da amizade.

Palavras que não são apenas sons, são lâminas finas, quase invisiveis, que passam rente à pele do coração, e uma amizade pode ficar beliscada para sempre.

Quem as diz, pode nem sentir o peso, porque nem sempre há a intenção de ferir...mas quem as ouve sente o golpe, e ele fica ali a latejar em silêncio. 

A amizade é frágil e forte ao mesmo tempo.

Frágil, porque basta um descuido para doer.

Forte, porque havendo humildade, sendo verdadeira, ela sabe sarar e florescer de novo.

Por vezes, a chave está apenas em  dizer a palavra mágica e sábia "desculpa".

Ou um simples gesto, um sorriso, um olhar que seja um sopro de ar fresco.

Porque amizades duradouras não são as que nunca se magoam, mas as que conseguem conversar sobre a dor sem levantar novas espadas.

Pensar antes de falar, é uma forma de carinho, quase um abrigo que oferecemos ao outro, e assim mesmo com pequenas feridas, a amizade continua firme, como uma flor que se abre.

                          "Vamos respirar juntas outra vez?"

Duda


Isa

23
Nov25

Hoje falo do Duda.

O cachorrinho de uns amigos. um boxer robusto,  trinta quilos de travessuras e alegria pura.

É o companheiro inseparável de brincadeiras do membro mais novo da família.

Quem o vê ao longe teme o seu porte, mas basta uma mão estendida, logo salta em festa e revela o seu coração doce e terno. E eu...eu já não passo sem o seu amor, nem a sua cauda a abanar feliz quando me vê.

Na casa dos meus pais sempre houve animais, e a minha infância fez-se ao ritmo de patinhas a correr atrás de mim.

Mais tarde, já adulta, na minha casa, também enchi a casa desse mesmo som, o eco de patinhas que tornam um lar mais vivo.

A minha última cadelinha partiu há três anos, depois de vinte dois anos ao meu lado, e ainda não abri espaço para outro. As memórias são fortes, as saudades estão muito presentes e ainda dói.

Por isso, o Duda, ganhou um canto no meu coração.

No fundo, no fundo, ele também é um bocadinho meu  

O Outono


Isa

21
Nov25

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Gosto do Outono.

Talvez porque nele nasci, ou talvez porque ele guarda uma beleza que só os corações atentos reconhecem.

Há qualquer coisa de abraço nos dias que começam a encolher.

As noites de Outono pedem um jantar quentinho, a casa perfumada com o cheio das velas, a mesa mesmo que pequena, mas cheia de amor.

E o casaco comprido aquece mais do que o corpo, aquece a alma, e que bem sabe um  cachecol quentinho, a envolver o pescoço, como se dissesse: "calma, vai tudo devagar".

As árvores, essas sábias do tempo, vão-se despedindo folha a folha, numa lentidão bonita, quase cerimonial.

E no chão o Outono estende já um tapete de ouro velho, onde cada folha parece contar a história de uma estação que se despede com dignidade.

 Gosto das noites de chuva, do barulho suave nas janelas, como se o mundo respirasse mais fundo.

 De caminhar na rua e sentir o frio no rosto, lembrando-me que estou viva, que o tempo passa, mas que há esta estação sempre com a mesma doçura.

O Outono tem a beleza tranquila de quem sabe que não precisa impressionar.

É só ele próprio, sereno, fresco, íntimo.

E eu encontro-me nele, todos os anos, como quem reencontra um velho amigo.

Sonhos e Realidade


Isa

16
Nov25

A realidade tem o seu próprio ritmo.

Virei-me sobre a minha existência e contemplo-a.

Sonhar é diferente! 

Eu sonho constantemente para fugir aos limites que a realidade me impõe.

Por vezes temos de aceitar e esperar.

Tomarmos conscência que nem sempre vivemos na sociedade que gostariamos de ter, para nós, e sobretudo para os nossos filhos.

Aceitar que a verdade não é sagrada, que ficaremos sempre aquém do que desejamos.

Por isso o sonho é o sentimento que nos ampara e dá força para acreditar, que um dia venceremos esta realidade que não aceitamos.

Sou infinita em mim.

Não existe distância entre os meus pés, que pousam no chão, e o meu olhar que viaja com as estrelas.

Não imponho limiltes ao amor, aos sonhos, à dor que por vezes me magoa.

Entrego-me a todos, e cada sentimento, com a mesma transparência e total doação.

Se algum dele me ferir, o meu espírito aprendeu com a vida a lutar e vencer.

 

Partir


Isa

16
Nov25

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá licões de partir.

Hei-de aprender com ele.

A partir de uma vez. Sem medo. Sem remorso. Sem saudade.

In Manuel Bandeira

Um dia que iluminou Novembro


Isa

15
Nov25

Novembro tem sido um mês de dias inquietos.

A chuva caiu com força, o vento soprou nas janelas e o frio, teimoso, lembra-nos que o Inverno espreita.

Até um pequeno tornado ousou passar, semeando destruição.

Mas apesar das nuvens pesadas, houve um dia em que tudo foi sol.

Um dia em que a casa, o meu coração, o coração da família e dos amigos ficaram cheios de calor, risos e amor.

Celebrámos o aniversário do meu filho mais velho, e cada abraço parecia acender mais uma vela invisível.

A alegria encheu-nos por dentro, e os momentos simples, mas tão preciosos, fizeram esquecer a chuva intensa que caia lá fora.

Novembro pode trazer tempestades, é verdade, mas há dias que nos lembram que o verdadeiro abrigo é ter a família reunida, o amor que nunca falta e o coração que encontra luz, mesmo quando o céu decide escurecer.